01 março 2010

Crônica do Telefone - Renato Baptista

Crônica do Telefone


Odisséia – PARTE 1

Em meados de Julho de um ano desses, recebi em minha residência uma carta da Cia. de Telefonia local que me informava friamente que a partir de Setembro do mesmo ano, o prefixo do meu número telefônico residencial seria alterado para ... (xxxx).
No final de Agosto, distribui orgulhosamente para todos os interessados a notícia da mudança e fiquei lá aguardando a primeira ligação.
Ficou tudo por isso mesmo, pois todo mundo que me ligava a partir daquela data, escutava uma mensagem que dizia que aquele numero de telefone não existia.
Pois é... passei por mentiroso, fugitivo e sei lá mais o que. Mas tudo bem, falhas acontecem.
A vida foi seguindo, o número continuou o mesmo e num belo Domingo de Dezembro pela manhã, resolvi retirar os recados do meu celular que passa invariavelmente os finais de semana morto e desligado. Foi o destino.
A caixa postal estava lotada até a boca com mensagens que diziam que eu não podia mudar o número do meu telefone e não avisar ninguém. - Que amigo que era eu ?. - Por que essa minha indiferença?,... e até alguns xingamentos que agora não vêm ao caso, foram-me proporcionados pelos mais íntimos.
Nesse momento, aparentando total incapacidade em frente a minha mulher e meus filhos, eu me pedi calma e usando toda a minha perspicácia e sabedoria, iniciei um processo de regressão que imediatamente me levou àquela carta do mês de Agosto. Pronto, agora sim, mudaram o prefixo e não me avisaram. E com um pequeno atraso de 4 meses .
Com toda a certeza do mundo, convoquei a atenção da família inteira, saquei o meu celular e digitei o número da minha própria casa com o novo prefixo. Acionei o viva -voz, e após o terceiro toque , mediante a expectativa de todos, o inacreditável :
- “Este número de telefone não existe, queira consultar o catálogo ou acione o serviço de informações”. Gargalhada geral ! Passei a pensar que eu não existia mais.

Odisséia – PARTE 2

Pedi, dilacerado e educadamente que todos procurassem o que fazer enquanto eu resolvia o problema. Eu não agüentaria outras gargalhadas!
Comecei então a minha viagem pelos 103,105,108,102,106, até que apareceu uma atendente que eu achei que pudesse resolver a questão. Ela concordou comigo que o meu número havia sido mudado e me deu até a data. Brilhante ! Estava a um passo da solução.
Perguntei porque a gravação não informava a mudança e não indicava a existência do novo número. Pronto, agora eu escutava pela segunda vez a maior pérola da telefonia : - Aguarde 01 minuto por favor.
É incrível a relação de tempo na telefonia. Um ( 01 ) minuto significa invariavelmente 2 ou 3 no mínimo. Para cada pergunta que você faz tem-se que esperar 3 ou 5 minutos por uma resposta.
O que será que esses atendentes fazem nesse período? Será que eles consultam o Manual do escoteiro Mirim? Ou será que pedem ajuda às Cartas e aos Universitários, ou perguntam para o cara ao lado, ou ligam para o chefe e só dá ocupado? Intrigante isso !
Mas algum mistério envolve essa nova relação de tempo. É sim , o “ Minuto Telefônico “. Uma nova medida de tempo Mundial que inventamos. Estaremos na mídia, venderemos bilhões de relógios novos, revolucionaremos os conceito de espaço x tempo. Mas ssscchhhh!! A Cia. De Telefonia não percebeu isto ainda !
E finalmente quando você menos espera, o atendente desafia a sua paciência com outra pérola do tipo : -“ Obrigado por aguardar, senhor “. Mal sabe ela que eu é que devia agradecer, pois acabei de formular um plano estratégico de mudança da relação de tempo Mundial que me tornará riquíssimo.
Bem, voltando ao tema, ela simplesmente respondeu que existiam alguns problemas técnicos, e que estaria registrando a minha reclamação...e que eu aguardasse 72 horas ( Seriam horas de minutos telefônicos ou” antigas” ? ).
Até aí tudo bem, mas eu resolvi cair na besteira de perguntar o natural, o óbvio :
-Por favor qual seria , assim como quem não quer nada, o meu número de telefone novo ?
A resposta que veio após alguns minutos telefônicos foi simplesmente espetacular :
- Senhor, o assinante não permite a divulgação do seu número telefônico ! Ah , Peguei-a desta vez ! Respondi cheio de razão que o assinante era “EU”, e que eu nunca havia proibido nada deste tipo. E ela tinha certeza de que eu era eu mesmo pois já havia fornecido o meu RG, CPF, conta bancária, comprovante de residência, hollerith, nome do Pai, da Mãe e do Espírito Santo, e até quantas horas eu dormia por noite ela já sabia, portanto era claro que ela podia fornecer para mim mesmo o meu próprio número de telefone. Certo? ...Errado.
- Senhor, o assinante não permite a divulgação.
Tive certeza que eu estava frente a frente com algum tipo de replicante. Não havia mais argumentação.
De repente ocorreu-me o óbvio . – Por favor, já que o assinante sou eu e você disse que eu proibi a divulgação do número, eu posso pedir o cancelamento desta proibição, certo? ...( dedos torcidos...)
Depois de aguardar o tal do 01 minuto de praxe, uma voz macia ecoou como música no meu ouvido; - Senhor, estou cancelando a proibição de divulgação do número, o senhor confirma? – Achei que ela estava tirando uma com a minha cara, mas confirmei.
Aí veio; - Por favor, anote o número do pedido. É 87678B045J421 - 0 e por aí afora... Pronto, como ela não contava com a minha astúcia, cheio de poder , preparei-me para o golpe fatal, mas ela foi mais rápida e eu escutei prontamente : - Mais alguma informação senhor?
Esta era a senha... enfim anos de estudo e um pós-graduação serviram para alguma coisa. Meus pais deveriam estar orgulhosos de mim. Disparei sem pestanejar :
- Pelo amor de Deus , qual o novo número do meu telefone?
Resposta : - Pois não, senhor , por favor, poderia confirmar o nome do assinante?
...Bem, resolvi ser educado, e respondi a todas as bobagens perguntadas. E finalmente como num passe de mágica, descobri o número do meu telefone, aquele que eu pago mensalmente há 20 anos.
Haviam mudado o prefixo e o primeiro número dos outros quatro.
E agora sim, todos em casa estavam felizes e orgulhosos do Papai, e começaram os planos para divulgar o número novo para todos os amigos.
Será que depois de tudo isso eu não deveria vender o meu número para as pessoas?
Não...besteira. Ninguém pagaria para ter o meu número telefônico, uma bobagem que afinal, você descobre facilmente em qualquer lugar...

Renato Baptista

Todos os Direitos Reservados

5 comentários:

May Santos disse...

Poxa! N° de ouro esse seu!! kkk
Pode se sentir orgulhoso por seu raciocínio rápido! Eu teria desistido, não tenho a menor paciência com esses atendentes ...

Abraços e boa semana!

Jorge Jansen disse...

Você praticou a arte zen de se comunicar com as atendentes telefônicas. Você foi elevado ao sétimo céu. A prova disso é que foi agraciado com o seu número de telefone.
Muito boa!!!
Abraços

*Isis* disse...

Meu amigo, que peregrinação, hem? rss...
Mas infelizmente (é fato)!
Vender eu não diria, mas... Que você passou a ser o super-homem da paciência, ah isso passou...
Renato, interessante e emocionante para o leitor.
Abraço, amigo.
Isis

Márcia Vilarinho disse...

Renato

Fantástica a sua crônica..mas fiquei na dúvida...ao final do texto consta...todos os direitos reservados...sobre o telefone? (risos).
Olha, você teve a paciência de descrever passo a passo o transtorno de saúde física mental que é falar com a Telefônica. Abraços

Beatriz Prestes disse...

Talento sempre lindo e renovado em casa nova!!!
Maravilhoso espaço onde talento corre no sangue!
Parabéns....está tudo de lindo!
Beijo
Bea